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Explicações reducionistas no discurso científico sobre o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade desde 1950 (Fabíola Stolf Brzozowski)

AUTORA Fabíola Stolf Brzozowski ORIENTADORA Professora Doutora Sandra Caponi PROGRAMA Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Universidade Federal de Santa Catarina, para a obtenção do título de Doutora em Saúde Coletiva. Linha de pesquisa: Epistemologia e saúde. LOCAL E DATA Florianópolis, SC – 2013 Dedicatória Para José e Marisa Agradecimentos Gostaria de agradecer, primeiramente, à minha orientadora, Sandra Caponi, pelo apoio, orientação e pela amizade ao longo desses anos. É uma honra e um privilégio trabalhar com você. Espero continuar essa parceria por muitos outros anos. Agradeço aos membros da banca, que se disponibilizaram a ler este trabalho e aceitaram contribuir com ele. Ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e aos professores que fizeram parte dessa tese, especialmente àqueles que me ajudaram no período em que minha orientadora esteve fora do país. Às minhas amigas Rita, Ana, Giovana e Silvia, pelo carin...

POR QUE EXPLORAR O ESPAÇO. DO DR. ERNST STUHLINGER PARA A IRMA MARRY JUCUNDA

 Em 1970, a Irmã Mary Jucunda, freira missionária no Zâmbia, escreveu ao Dr. Ernst Stuhlinger, diretor de ciência do Centro de Voo Espacial Marshall da Nasa, que no momento pesquisava as possibilidades de uma missão tripulada a Marte, e perguntou-lhe como ele podia pensar em gastar bilhões de dólares nesse tipo de projeto quando em todo o planeta havia tantas crianças morrendo de fome. Em resposta, Stuhlinger enviou-lhe uma longa carta e uma cópia da Terra nascente”, a icônica foto do nosso planeta visto da Lua em 1968 pelo astronauta William Anders. Os colegas de Stuhlinger expressaram tamanha admiração por essa resposta que, mais tarde, a Nasa decidiu publicá-la com o título “Por que explorar o espaço?”

6 de maio de 1970

Prezada Irmã Mary Jucunda,

Sua carta foi uma das muitas que chegam todos os dias, mas ela me tocou mais profundamente do que todas as outras, porque ela veio das profundezas de uma mente curiosa e um coração compassivo. Vou tentar responder sua pergunta da melhor maneira possível.

Antes, porém, gostaria de expressar a minha grande admiração pela senhora e por suas bravas irmãs que estão dedicando a vida à mais nobre das causas: ajudar os necessitados.

A senhora me pergunta em sua carta como eu poderia sugerir os gastos de bilhões de dólares para uma viagem a Marte, num momento em que muitas crianças nesta Terra estão morrendo de fome. Eu sei que a senhora não esperava uma resposta como "Oh, eu não sabia que há crianças que morrem de fome, mas de agora em diante eu vou desistir de qualquer tipo de pesquisa espacial até que a humanidade tenha resolvido esse problema!" Na verdade, eu já sabia da fome das crianças muito antes de saber se uma viagem ao planeta Marte era tecnicamente viável. No entanto, como muitos dos meus amigos, eu acredito que viajar à Lua e eventualmente a Marte e outros planetas é um risco que devemos correr agora, e eu ainda acredito que este projeto, a longo prazo, irá contribuir mais para a solução desses graves problemas que estamos enfrentando aqui na Terra do que muitos outros projetos potenciais de ajuda que são discutidos ano após ano e demoram uma eternidade para produzir resultados concretos.


Antes de tentar descrever com mais detalhes como o nosso programa espacial está contribuindo para a solução de nossos problemas terrestres, eu gostaria de lhe contar brevemente uma história supostamente verdadeira, que pode corroborar meu argumento. Há cerca de 400 anos, vivia em uma pequena cidade na Alemanha um conde muito bondoso que dava aos pobres grande parte de suas rendas. Era uma grande ajuda, pois, na época, a pobreza era imensa e as epidemias de peste dizimavam a população. Um dia, o conde conheceu um homem muito estranho que tinha em casa uma bancada de trabalho e um pequeno laboratório e trabalhava duro o dia inteiro para poder, à noite, dedicar algumas horas ao laboratório. Ele polia pedaços de vidro; e colocava as lentes em tubos para contemplar objetos minúsculos. O conde ficou fascinado com as pequeninas criaturas que nunca tinha visto e agora podia observar graças à grande ampliação. Ele convidou o homem a mudar-se para o castelo com seu laboratório e, na condição de empregado especial, dedicar-se em tempo integral à produção e ao aperfeiçoamento de seus aparelhos ópticos.

As pessoas da cidade, no entanto, ficaram com raiva quando perceberam que o conde estava gastando dinheiro, como eles pensavam, em um golpe sem propósito. "Estamos sofrendo com a peste", disseram eles, "enquanto ele está pagando esse homem para um passatempo inútil!" Mas o conde se manteve firme. "Dou para vocês tanto quanto eu posso pagar", disse ele, "mas eu também irei apoiar este homem e seu trabalho, porque eu sei que um dia alguma coisa vai sair dali!".

Na verdade, algo muito bom saiu desse trabalho, e também do trabalho semelhante feito por outras pessoas, em outros lugares: o microscópio. Sabemos que o microscópio contribuiu mais do que qualquer outra invenção para o progresso da medicina, e que a eliminação da peste e muitas outras doenças contagiosas na maioria dos países, em grande parte, deve-se a estudos que o microscópio tornou possíveis.

O conde, poupando um pouco de seu dinheiro para ser gasto com pesquisa, contribuiu muito mais para o alívio do sofrimento humano do que ele poderia ter contribuído dando tudo o que ele pudesse poupar à sua comunidade dominada pela peste.

A situação que estamos enfrentando hoje é semelhante em muitos aspectos. O Presidente dos Estados Unidos está gastando cerca de 200 bilhões de dólares em seu orçamento anual. Esse dinheiro vai para a saúde, educação, bem-estar, a renovação urbana, rodovias, transporte, ajuda externa, defesa, conservação, ciência, agricultura e muitas bases militares dentro e fora do país. Neste ano, cerca de 1,6% deste orçamento nacional foram destinados à exploração do espaço. O programa espacial inclui Projeto Apollo, e muitos outros projetos menores em física espacial, astronomia, astrobiologia, projetos planetários, projetos de recursos terrestres e engenharia espacial. Para financiar o programa espacial, o americano médio que ganha 10.000 dólares por ano paga cerca de 30 dólares de impostos para o Espaço. Os 9970 dólares restantes são gastos com alimentação, lazer, poupança, outros impostos e demais despesas.

Você provavelmente vai perguntar agora: "Por que vocês não pegas 5, 3 ou 1 dólar dos 30 dólares que o contribuinte americano médio está pagando e os enviam para as crianças com fome?" Para responder a esta pergunta, eu tenho que explicar brevemente como a economia deste país funciona. A situação é muito semelhante em outros países. O governo é composto por um certo número de departamentos – Interior, da Justiça, Saúde, Educação e Bem-Estar, Transportes, Defesa e outros [no Brasil, recebem o nome de “Ministérios”] e as agências como a Fundação Nacional de Ciência e a NASA (National Science Foundation, National Aeronautics and Space Administration, respectivamente), entre outras. Todos elaboram os seus orçamentos anuais de acordo com as suas incumbências e precisam justifica-lo perante as comissões de congressistas, o Gabinete do Orçamento e o presidente, que os pressionam para economizar. Quando as verbas finalmente são liberadas pelo Congresso, só podem ser gastas com os itens especificados e aprovados no orçamento

O orçamento da NASA, naturalmente, só pode conter itens diretamente relacionados à aeronáutica e espaço. Se este orçamento não for aprovado pelo Congresso, os fundos propostos não estarão disponíveis para outra coisa e simplesmente não serão cobrados do contribuinte, a menos que um dos outros orçamentos obtiver aprovação para um aumento específico, que passaria a absorver os fundos que não foram repassados para o Espaço. Você percebe que a partir deste breve discurso que o apoio às crianças com fome, ou melhor, um apoio para além do que os Estados Unidos já está a contribuir para esta causa muito digna na forma de ajuda externa, só pode ser obtida se o departamento apropriado apresentar um item para este propósito no seu orçamento, para que o mesmo seja, então, aprovado pelo Congresso.

Você pode perguntar agora se eu, pessoalmente, seria a favor de tal medida pelo nosso governo. Minha resposta é um enfático “sim”. Na verdade, eu não me importaria nem um pouco de pagar alguns dólares a mais de imposto para alimentar crianças famintas em qualquer lugar do mundo.

Eu sei que todos os meus amigos se sentem da mesma maneira. No entanto, não podemos executar esse projeto apenas desistindo de planejar viagens a Marte. Ao contrário, acredito que, através do meu trabalho no programa espacial, posso contribuir de algum modo para minorar e até solucionar os graves problemas da pobreza e da fome no mundo. O problema da fome envolve duas atividades básicas: a produção de alimento e sua distribuição. A produção de alimento por meio da agricultura, da pecuária, da pesca oceânica e de outras operações em larga escala é eficiente em alguns países e terrivelmente deficiente em outros. Por exemplo, há grandes extensões de terra que poderiam ter um aproveitamento muito melhor com métodos eficazes de controle da drenagem, uso de fertilizantes, previsão do tempo, estimativas de fertilidade, plantio programado, seleção de solo, hábitos de plentio, época de cultivo, inspeção de plantação e planejamento da colheita.

A melhor ferramenta para a melhoria de todas essas funções, sem dúvida, é o satélite artificial da Terra. Circundando o globo em uma altitude elevada, ele pode rastrear vastas áreas de terra dentro de um curto espaço de tempo; pode observar e medir uma grande variedade de fatores que indicam o estado e condições das culturas, o solo, as secas, a precipitação, a cobertura de neve etc., e pode repassar estas informações para estações terrestres para o uso adequado. Estima-se que até mesmo um sistema modesto de satélites, equipados com recursos e sensores voltados para a melhoria da agricultura mundial aumentará em muitos bilhões de dólares as safras anuais.

A distribuição dos alimentos aos necessitados é um problema completamente diferente. A questão não é tanto do volume de transporte, e sim da cooperação internacional. O governante de um país pequeno pode se sentir muito desconfortável com a perspectiva de ter grandes quantidades de alimentos enviados para o seu país por uma grande nação, simplesmente porque ele teme que, juntamente com a comida, também possa haver um aumento de influência e poder estrangeiro. Um eficiente alívio da fome, eu creio, não virá antes que as fronteiras entre as nações tornem-se menos divisórias do que são hoje. Eu não acredito que o programa espacial vá realizar esse milagre durante a noite. No entanto, o programa espacial é, certamente, um dos meios mais promissores e poderosos para chegar a isso.

Permita-me lembrarDeixe-m do que aconteceu recentemente com a Apollo 13. Ao aproximar-se o momento crucial da reentrada dos astronautas na atmosfera, a União Soviética suspendeu todas as transmissões russas via rádio nas frequências utilizadas pelo projeto Apollo a fim de evitar possíveis interferências e navios russos estacionaram no Atlântico e no Pacífico, para o caso de um resgate de emergência fosse necessário. Se a cápsula dos astronautas tivesse caído perto de um navio russo, os marinheiros, sem dúvida, procurariam resgatá-los com o mesmo empenho que teriam para socorrer compatriotas que estivessem voltando de uma viagem espacial. E os americanos certamente fariam a mesma coisa, se cosmonautas russos se encontrassem numa situação semelhante.

Maior produção de alimentos graças a dados colhidos por satélites e melhor distribuição de alimentos graças a boas relações internacionais são apenas dois exemplos do profundo impacto que o programa espacial terá sobre a vida na Terra. Eu gostaria de citar dois outros exemplos: o estímulo ao desenvolvimento tecnológico, e a geração de conhecimento científico.

Os requisitos de alta precisão e de extrema confiabilidade impostos aos componentes de uma nave espacial com destino à Lua não têm precedentes na história da engenharia. O desenvolvimento de sistemas que atendem a esses requisitos severos nos forneceu uma oportunidade única de encontrar novos materiais e novos métodos, de inventar melhores sistemas técnicos, de conceber procedimentos, de prolongar a vida útil dos instrumentos e até de descobrir novas leis da natureza.

Todo este conhecimento técnico recém-adquirido também está disponível para aplicação em tecnologias na Terra. Todos os anos, cerca de mil inovações tecnológicas geradas no programa espacial são incorporadas a nossa tecnologia terrestre, resultando em melhores eletrodomésticos e equipamentos agrícolas, melhores máquinas de costura e rádios, melhores navios e aviões, melhor previsão do tempo e alerta de tempestade, melhores comunicações, melhores instrumentos para a medicina, melhores utensílios e ferramentas para a vida cotidiana. Provavelmente, agora a senhora vai perguntar por que estamos desenvolvendo um sistema que mantenha as funções vitais de nossos astronautas a caminho da Lua antes de ter condições de construir um sensor de leitura remota para pacientes cardíacos. A resposta é simples: grandes progressos na solução de problemas técnicos muitas vezes não se devem a uma abordagem direta, mas ao estabelecimento de um objetivo difícil de alcançar que constitui forte motivação para o trabalho inovador, estimula a imaginação, incita as pessoas a envidar todos os esforços a atua como um catalisador, incorporando cadeias de outras reações.

Os voos espaciais tripulados, sem qualquer dúvida, estão exercendo exatamente esse papel. A viagem a Marte certamente não será uma fonte direta de alimento para os famintos. No entanto, ele vai levar a tantas novas tecnologias e capacidades que só os subprodutos deste projeto compensarão mil vezes o custo de sua implementação.

Além da necessidade de novas tecnologias, há uma grande necessidade contínua de novos conhecimentos básicos em ciências, se quisermos melhorar as condições de vida humana na Terra. Precisamos de mais conhecimento na física e na química, na biologia e fisiologia, e muito particularmente na medicina, para lidar com todos os problemas que ameaçam a vida do homem: fome, doenças, contaminação de alimentos e água e a poluição do meio ambiente.

Precisamos de homens e mulheres que escolham a ciência como uma carreira e que precisamos que os cientistas que têm o talento e a determinação de se envolver em trabalhos de pesquisa mais frutíferos recebam mais apoio. Precisamos propor-lhes objetivos instigantes e fornecer-lhes devida assistência. Mais uma vez, o programa espacial, com suas maravilhosas oportunidades de estudos e pesquisa de luas e planetas, da física e da astronomia, da biologia e da medicina, é um catalisador quase ideal que induz a reação entre a motivação para o trabalho científico, oportunidades para observar emocionantes fenômenos da natureza, e o suporte material necessário para pesquisar.

Dentre todas as atividades que são dirigidas, controladas e financiadas pelo governo americano, o programa espacial é certamente o mais visível e provavelmente a atividade mais debatida, embora ele consuma apenas 1,6% do orçamento total nacional, e 0,3% do produto interno bruto. Como um estímulo para o desenvolvimento de novas tecnologias, e para a pesquisa nas ciências básicas, é inigualável por qualquer outra atividade. A este respeito, pode-se mesmo dizer que o programa espacial está assumindo uma função que por três ou quatro mil anos tem sido a triste prerrogativa de guerras.

Quanto sofrimento humano pode ser evitado se em vez de competir uns com os outros em termos de bombardeiros e foguetes, os países passarem a competir uns com os outros em termos de espaçonaves lunares! Essa é uma competição que promete brilhantes vitórias, porém não deixa espaço para a amargura que leva o vencido a buscar vingança e novas guerras.

Embora o nosso programa espacial pareça levar-nos longe de nossa terra e em direção à Lua, o Sol, os planetas e as estrelas, eu acredito que nenhum desses corpos celestes despertará nos cientistas espaciais tanto interesse quanto a nossa Terra. Ela será melhor, não só porque usaremos todo o nosso novo conhecimento científico e tecnológico para melhorar nossas condições de vida, mas também porque estamos desenvolvendo um apreço muito mais profundo por nossa Terra, pela vida e pelo homem.


A foto com a qual eu encerro esta carta mostra nossa Terra vista pela Apollo 8, quando orbitou a Lua no Natal de 1968. De todos os muitos resultados maravilhosos do programa espacial, até agora, esta imagem pode ser a mais importante. Ela nos faz ver que nossa Terra é uma bela ilha preciosa num vazio infinito e que não temos outro lugar para morar além da fina superfície de nosso planeta, em meio ao nada do espaço. Até então, nunca tanta gente percebera como nossa Terra é limitada e como é perigoso perturbar seu equilíbrio ecológico. Desde que essa foto foi publicada pela primeira vez, têm se intensificado as vozes que apontam os graves problemas de nossa época: a poluição, a fome, a pobreza, a vida urbana, produção de alimentos, controle de água e superpopulação. Certamente não é por acaso que nós começamos a nos dar conta das tarefas tremendas que nos aguardam.

Mas, felizmente, a era espacial não só nos apresenta um espelho, no qual podemos nos ver, como nos proporciona as tecnologias, o desafio, a motivação e até mesmo o otimismo para enfrentar essas tarefas com confiaça. O que aprendemos com nosso programa espacial, creio eu, corrobora o que Albert Schweitzer tinha em mente quando disse: "Olho para o futuro com preocupação, mas com esperança".

Desejo que tudo corra bem para a senhora e suas crianças.


Cordialmente,


Ernst Stuhlinger

Diretor Associado para a Ciência

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