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Explicações reducionistas no discurso científico sobre o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade desde 1950 (Fabíola Stolf Brzozowski)

AUTORA Fabíola Stolf Brzozowski ORIENTADORA Professora Doutora Sandra Caponi PROGRAMA Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Universidade Federal de Santa Catarina, para a obtenção do título de Doutora em Saúde Coletiva. Linha de pesquisa: Epistemologia e saúde. LOCAL E DATA Florianópolis, SC – 2013 Dedicatória Para José e Marisa Agradecimentos Gostaria de agradecer, primeiramente, à minha orientadora, Sandra Caponi, pelo apoio, orientação e pela amizade ao longo desses anos. É uma honra e um privilégio trabalhar com você. Espero continuar essa parceria por muitos outros anos. Agradeço aos membros da banca, que se disponibilizaram a ler este trabalho e aceitaram contribuir com ele. Ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e aos professores que fizeram parte dessa tese, especialmente àqueles que me ajudaram no período em que minha orientadora esteve fora do país. Às minhas amigas Rita, Ana, Giovana e Silvia, pelo carin...

A Sombra e a Coisa: Uma Leitura Psicanalítica de "Aquela Coisa", de Raul Seixas

Lançada em 1979 no álbum "Mata Virgem", "Aquela Coisa" é uma das canções mais filosóficas e introspectivas de Raul Seixas. Nela, o "Maluco Beleza" abandona, temporariamente, o rockabilly e as referências ao ocultismo para entregar uma reflexão crua sobre a condição humana. A letra aborda a angústia existencial de um sujeito que se sente aprisionado não por algo externo e concreto, mas por uma estrutura internalizada de normas, expectativas e dores não resolvidas.


Aquela Coisa

Canção de Raul Seixas ‧ 1983



Meu sofrimento é fruto do que me ensinaram a ser
Sendo obrigado a fazer tudo mesmo sem querer
Sim...
Quando o passado morreu e você não enterrou
O sofrimento do vazio e da dor
Ficam ciúmes, preconceitos de amor

E então, e então

É preciso você tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Minha cabeça só pensa aquilo que ela aprendeu
Por isso mesmo, eu não confio nela eu sou mais eu
Sim...
Pra ser feliz é olhar as coisas como elas são
Sem permitir da gente uma falsa conclusão
Seguir somente a voz do seu coração

E então, e então

É preciso você tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

E aquela coisa que eu sempre tanto procurei
É o verdadeiro sentido da vida
Abandonar o que aprendi parar de sofrer
Viver é ser feliz e nada mais

Mas é preciso você tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Mas é preciso você tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer

Fonte: Musixmatch

Compositores: Raul Seixas / Claudio Roberto Andrade De Azeredo / Angela Maria De Affonso Costa

Letra de Aquela Coisa © Warner/chappell Edicoes Musicais Ltda


Se para Sigmund Freud o mal-estar na civilização é o preço que pagamos pela vida em sociedade (a repressão dos instintos em troca da segurança coletiva), para Raul Seixas, esse mal-estar é o tema central. A música se torna, assim, um território fértil para uma análise à luz da psicanálise, especialmente quando investigamos as origens desse sofrimento no subconsciente e nos traumas da infância.

O "Sofrimento Programado": A Estruturação do Sujeito e a Infância

 

A chave psicanalítica da música está nos primeiros versos:

> *"Meu sofrimento / É fruto do que me ensinaram a ser"* .

 

Para a psicanálise, o sujeito não nasce pronto. Ele é moldado, especialmente nos primeiros anos de vida, pela relação com o outro (os pais ou cuidadores) e pela entrada na linguagem e na cultura (o que Jacques Lacan chamaria de "Grande Outro"). A criança chega ao mundo com uma pulsão desordenada, e é o ambiente familiar que lhe oferece as primeiras máscaras, os primeiros scripts de como se comportar, amar e desejar.

 

Raul canta que foi "obrigado a fazer tudo mesmo sem querer" . Essa frase dialoga diretamente com a ideia de **"trauma de infância"** não necessamente como um grande abalo (como um acidente ou abuso), mas como a violência simbólica cotidiana da educação. É o "cala a boca", o "menino não chora", o "seja bonzinho". São pequenas mortes do desejo autêntico da criança em prol da aceitação social.

 

Essas experiências não desaparecem; elas são recalcadas. Elas formam o que Freud chamou de **inconsciente** – uma espécie de "lugar" psíquico onde vão parar os desejos, memórias e conflitos que são dolorosos ou inaceitáveis para a consciência. O sofrimento adulto, portanto, é o retorno desse material recalcado, é o "fruto" dessas sementes plantadas na infância.

 

## 2. "Aquela Coisa" como o Sintoma e o Retorno do Recalcado

 

Ao longo de toda a canção, Raul busca algo indefinido, uma "coisa". Ele não sabe explicar o que é, mas sente sua falta. Na psicanálise, o sintoma (a angústia, a insatisfação crônica, os padrões de comportamento repetitivos) é exatamente isso: uma "coisa" estranha que habita o sujeito sem que ele a compreenda. É uma formação do inconsciente, como o sonho ou o ato falho.

 

O eu-lírico percebe que o que lhe ensinaram só gera "vazio e solidão" . Ele está preso em uma repetição. Freud, em seu texto "Além do Princípio do Prazer" (1920), descreve a **"compulsão à repetição"** , um fenômeno onde o sujeito tende a reproduzir situações dolorosas do passado sem se lembrar do modelo original. Ou seja, a pessoa que teve um pai autoritário pode, inconscientemente, buscar parceiros ou chefes autoritários na vida adulta. O indivíduo repete o trauma na tentativa frustrada de dominá-lo.

 

Quando Raul fala em "continuar a cultivar o que já terminou", ele descreve com precisão lírica esse mecanismo neurótico. O trauma acabou (a infância passou), mas o sujeito continua "cultivando" seus efeitos, regando as mesmas mágoas, encenando os mesmos conflitos.

 

## 3. A Ruptura Necessária: "Tentar" e o Processo Analítico

 

O refrão da música é um imperativo de ação: *"Tenta / Abre os olhos / Tenta / Levanta e anda"* . Essa não é uma simples mensagem de autoajuda. Na perspectiva psicanalítica, "tentar" é o equivalente ao processo de análise. É o esforço doloroso de trazer à consciência aquilo que está oculto.

 

A psicanálise propõe que a cura (ou o alívio) não vem de esquecer o passado, mas de **re-significá-lo**. É preciso "abrir os olhos" para o fato de que a pessoa adulta não é mais aquela criança indefesa. O analista ajuda o paciente a construir uma narrativa sobre a sua história que não seja a da vítima, mas a do sujeito que pode escolher.

 

A passagem *"Talvez alguma coisa muito nova possa lhe acontecer"* sugere a possibilidade de um encontro genuíno com o desejo. Algo que não estava nos roteiros infantis, algo que não foi programado pelos pais ou pela sociedade. É a possibilidade de tocar o que Raul define no fim como a verdadeira essência da vida.

 

A Conclusão da Jornada: "Viver é ser feliz"

 

A canção conclui que "Aquela Coisa" que ele procurava, na verdade, era a vida em sua expressão mais plena: *"Viver é ser feliz e nada mais"* .

 

Se olharmos pela lente freudiana, o objetivo da psicanálise não é a "felicidade" plena e constante (algo impossível para o psiquismo humano, dado o conflito estrutural entre as pulsões e a realidade), mas sim a capacidade de amar e trabalhar (*lieben und arbeiten*), ou seja, a capacidade de investir a energia psíquica na vida de forma mais livre, com menos entraves neuróticos.

 

A felicidade, na visão de Raul Seixas, parece estar ligada a essa reconquista da autonomia. Deixar de ser "obrigado a fazer" para fazer porque se escolheu. Isso implica abandonar as "velhas fórmulas" que a criança aprendeu e que o adulto insiste em usar. O grande trauma de infância é justamente ter nos ensinado a não confiar em nós mesmos, e a grande cura, como sugere a música, é o movimento corajoso de "ir fundo" no desconhecido interior para encontrar o que é genuinamente seu.

 

Conclusão

 

"Aquela Coisa" transcende a canção popular para se tornar um hino de conscientização psicológica. Raul Seixas, com sua verve poética, conseguiu traduzir em versos simples conceitos complexos sobre a formação do sujeito, a tirania do superego (a internalização das regras) e a busca pela verdade subjetiva. A música nos lembra que, por vezes, o maior ato de rebeldia não é contra o governo ou a sociedade, mas contra a prisão interna que construímos com as pedras que nos atiraram na infância. E que, para encontrar "aquela coisa" chamada felicidade, é preciso ter a coragem de se despir do que nos ensinaram a ser para, finalmente, descobrir o que realmente somos.


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