Lançada em 1979 no álbum "Mata Virgem", "Aquela Coisa" é uma das canções mais filosóficas e introspectivas de Raul Seixas. Nela, o "Maluco Beleza" abandona, temporariamente, o rockabilly e as referências ao ocultismo para entregar uma reflexão crua sobre a condição humana. A letra aborda a angústia existencial de um sujeito que se sente aprisionado não por algo externo e concreto, mas por uma estrutura internalizada de normas, expectativas e dores não resolvidas.
Aquela Coisa
Canção de Raul
Seixas ‧ 1983
Meu sofrimento é fruto do que me ensinaram a ser
Sendo obrigado a fazer tudo mesmo sem querer
Sim...
Quando o passado morreu e você não enterrou
O sofrimento do vazio e da dor
Ficam ciúmes, preconceitos de amor
E então, e então
É preciso você
tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer
Talvez alguma coisa
muito nova
Possa lhe acontecer
Minha cabeça só
pensa aquilo que ela aprendeu
Por isso mesmo, eu não confio nela eu sou mais eu
Sim...
Pra ser feliz é olhar as coisas como elas são
Sem permitir da gente uma falsa conclusão
Seguir somente a voz do seu coração
E então, e então
É preciso você
tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer
Talvez alguma coisa
muito nova
Possa lhe acontecer
E aquela coisa que
eu sempre tanto procurei
É o verdadeiro sentido da vida
Abandonar o que aprendi parar de sofrer
Viver é ser feliz e nada mais
Mas é preciso você
tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer
Talvez alguma coisa
muito nova
Possa lhe acontecer
Mas é preciso você
tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova
Possa lhe acontecer
Talvez alguma coisa
muito nova
Possa lhe acontecer
Fonte: Musixmatch
Compositores: Raul
Seixas / Claudio Roberto Andrade De Azeredo / Angela Maria De Affonso Costa
Letra de Aquela
Coisa © Warner/chappell Edicoes Musicais Ltda
Se para Sigmund Freud o mal-estar na civilização é o preço
que pagamos pela vida em sociedade (a repressão dos instintos em troca da
segurança coletiva), para Raul Seixas, esse mal-estar é o tema central. A
música se torna, assim, um território fértil para uma análise à luz da
psicanálise, especialmente quando investigamos as origens desse sofrimento no
subconsciente e nos traumas da infância.
O "Sofrimento Programado": A Estruturação do
Sujeito e a Infância
A chave psicanalítica da música está nos primeiros versos:
> *"Meu sofrimento / É fruto do que me ensinaram a
ser"* .
Para a psicanálise, o sujeito não nasce pronto. Ele é
moldado, especialmente nos primeiros anos de vida, pela relação com o outro (os
pais ou cuidadores) e pela entrada na linguagem e na cultura (o que Jacques
Lacan chamaria de "Grande Outro"). A criança chega ao mundo com uma
pulsão desordenada, e é o ambiente familiar que lhe oferece as primeiras
máscaras, os primeiros scripts de como se comportar, amar e desejar.
Raul canta que foi "obrigado a fazer tudo mesmo sem
querer" . Essa frase dialoga diretamente com a ideia de **"trauma de
infância"** não necessamente como um grande abalo (como um acidente ou
abuso), mas como a violência simbólica cotidiana da educação. É o "cala a
boca", o "menino não chora", o "seja bonzinho". São
pequenas mortes do desejo autêntico da criança em prol da aceitação social.
Essas experiências não desaparecem; elas são recalcadas.
Elas formam o que Freud chamou de **inconsciente** – uma espécie de
"lugar" psíquico onde vão parar os desejos, memórias e conflitos que
são dolorosos ou inaceitáveis para a consciência. O sofrimento adulto,
portanto, é o retorno desse material recalcado, é o "fruto" dessas
sementes plantadas na infância.
## 2. "Aquela Coisa" como o Sintoma e o Retorno do
Recalcado
Ao longo de toda a canção, Raul busca algo indefinido, uma
"coisa". Ele não sabe explicar o que é, mas sente sua falta. Na
psicanálise, o sintoma (a angústia, a insatisfação crônica, os padrões de
comportamento repetitivos) é exatamente isso: uma "coisa" estranha
que habita o sujeito sem que ele a compreenda. É uma formação do inconsciente,
como o sonho ou o ato falho.
O eu-lírico percebe que o que lhe ensinaram só gera
"vazio e solidão" . Ele está preso em uma repetição. Freud, em seu
texto "Além do Princípio do Prazer" (1920), descreve a
**"compulsão à repetição"** , um fenômeno onde o sujeito tende a
reproduzir situações dolorosas do passado sem se lembrar do modelo original. Ou
seja, a pessoa que teve um pai autoritário pode, inconscientemente, buscar
parceiros ou chefes autoritários na vida adulta. O indivíduo repete o trauma na
tentativa frustrada de dominá-lo.
Quando Raul fala em "continuar a cultivar o que já
terminou", ele descreve com precisão lírica esse mecanismo neurótico. O
trauma acabou (a infância passou), mas o sujeito continua
"cultivando" seus efeitos, regando as mesmas mágoas, encenando os
mesmos conflitos.
## 3. A Ruptura Necessária: "Tentar" e o Processo
Analítico
O refrão da música é um imperativo de ação: *"Tenta /
Abre os olhos / Tenta / Levanta e anda"* . Essa não é uma simples mensagem
de autoajuda. Na perspectiva psicanalítica, "tentar" é o equivalente
ao processo de análise. É o esforço doloroso de trazer à consciência aquilo que
está oculto.
A psicanálise propõe que a cura (ou o alívio) não vem de
esquecer o passado, mas de **re-significá-lo**. É preciso "abrir os
olhos" para o fato de que a pessoa adulta não é mais aquela criança
indefesa. O analista ajuda o paciente a construir uma narrativa sobre a sua
história que não seja a da vítima, mas a do sujeito que pode escolher.
A passagem *"Talvez alguma coisa muito nova possa lhe
acontecer"* sugere a possibilidade de um encontro genuíno com o desejo.
Algo que não estava nos roteiros infantis, algo que não foi programado pelos
pais ou pela sociedade. É a possibilidade de tocar o que Raul define no fim
como a verdadeira essência da vida.
A Conclusão da Jornada: "Viver é ser feliz"
A canção conclui que "Aquela Coisa" que ele
procurava, na verdade, era a vida em sua expressão mais plena: *"Viver é
ser feliz e nada mais"* .
Se olharmos pela lente freudiana, o objetivo da psicanálise
não é a "felicidade" plena e constante (algo impossível para o
psiquismo humano, dado o conflito estrutural entre as pulsões e a realidade),
mas sim a capacidade de amar e trabalhar (*lieben und arbeiten*), ou seja, a
capacidade de investir a energia psíquica na vida de forma mais livre, com
menos entraves neuróticos.
A felicidade, na visão de Raul Seixas, parece estar ligada a
essa reconquista da autonomia. Deixar de ser "obrigado a fazer" para
fazer porque se escolheu. Isso implica abandonar as "velhas fórmulas"
que a criança aprendeu e que o adulto insiste em usar. O grande trauma de
infância é justamente ter nos ensinado a não confiar em nós mesmos, e a grande
cura, como sugere a música, é o movimento corajoso de "ir fundo" no
desconhecido interior para encontrar o que é genuinamente seu.
Conclusão
"Aquela Coisa" transcende a canção popular para se
tornar um hino de conscientização psicológica. Raul Seixas, com sua verve
poética, conseguiu traduzir em versos simples conceitos complexos sobre a
formação do sujeito, a tirania do superego (a internalização das regras) e a
busca pela verdade subjetiva. A música nos lembra que, por vezes, o maior ato
de rebeldia não é contra o governo ou a sociedade, mas contra a prisão interna
que construímos com as pedras que nos atiraram na infância. E que, para encontrar
"aquela coisa" chamada felicidade, é preciso ter a coragem de se
despir do que nos ensinaram a ser para, finalmente, descobrir o que realmente
somos.
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